luz das luzes

‘Mestre: Com que luz vês tu?

Discípulo: A luz do sol durante o dia, a luz da lâmpada durante a noite.

M: Com que luz vês tu essas luzes?

D: O olhar.

M: Com que luz vês tu o olhar?

D: A mente.

M: Com que luz conheces a mente?

D: O Atma. (o Eu, o Ser)

M: Então tu és a Luz das luzes.

D: Sim, Isso Eu sou.’

Adi Shankaracharya

 

medo

‘Questão: Já não tenho medo. Encontrei alguma paz.

Maharaj: Que espécie de paz? A paz de teres o que queres, ou de não quereres o que não tens?

Q: Um pouco de ambas, acho eu. Não foi de todo fácil. Enquanto o ashram é um sítio bastante pacífico, por dentro eu estava em agonia.

M: Quando realizares que a distinção entre interior e exterior está apenas na mente, deixas de ter medo.

Q: No meu caso, essa realização aparece e desaparece. Ainda não alcancei a imutabilidade da plenitude absoluta.

M: Bem, enquanto acreditares nisso, tens de continuar com o teu sadhana, para dispersar a ideia falsa de não seres completa. O sadhana remove a falsidade sobreposta ao ser. Quando realizares que tu própria és menor que um ponto no espaço e no tempo, algo pequeno demais para ser cortado e breve demais para ser morto, aí, e só aí, todo o medo desaparece. Quando és mais pequena que a ponta da agulha, a agulha não te pode furar – és tu que furas a agulha!’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

toda a Verdade

‘Domingo, 12 Julho 1981 – Como tem sido habitual nestes últimos dias, o Maharaj estava deitado na sua cama, Anna, a sua fiel devota e assistente, massajava-lhe as pernas. Respirava com bastante dificuldade, quase sempre pela boca. Parecia estar a dormir profundamente. De repente, lutou para se conseguir sentar e foi ajudado a reclinar-se, suportado por algumas almofadas dispostas para esse efeito. Começou a falar, e a sua voz estava surpreendentemente firme:

  • O que vos quero dizer é espantosamente simples, desde que seja intuído directamente. A parte divertida é que só pode ser intuído se o ‘ouvinte’ estiver completamente ausente! Só assim é que a apercepção acontece, e tu és essa apercepção. O Absoluto não-manifestado expressa-se a si próprio na manifestação. A manifestação acontece através de milhões de formas; e em cada uma destas opera a consciência, a conduta e funcionamento de cada forma está, em geral, de acordo com a natureza básica da categoria à qual a forma pertence (quer seja uma planta, um insecto, um leão ou um homem), e em particular, de acordo com a combinação específica dos elementos básicos presentes em todas as formas. Não existem dois seres humanos iguais (as impressões digitais nunca são exactamente iguais); por causa das permutações e combinações dos milhões de tons possíveis em cada um dos oito aspectos (os cinco elementos básicos e os três gunas) resultam biliões e triliões de formas, em que a natureza de duas formas nunca é exactamente idêntica. Milhões dessas formas estão constantemente a ser criadas e destruídas no processo da manifestação. Uma percepção clara deste processo de manifestação implica a seguinte compreensão: (1º) não há na verdade nenhuma possibilidade de qualquer identificação com qualquer forma individual, porque a própria base desta manifestação-representação é a duração (de cada forma), e a duração é um conceito temporal; e (2º) a nossa verdadeira natureza é o testemunhar desta representação.Nem sequer é necessário dizer que o testemunhar só é possível enquanto o espectáculo continua, e o espectáculo só continua enquanto existir consciência. E quem compreende isto? A consciência, claro, que tenta procurar a sua fonte e não a encontra, porque aquele que procura é o procurado. A apercepção desta verdade é a derradeira e única libertação, e o ‘joker no baralho’ é o facto de que até a ‘libertação’ é um conceito! Agora vai e contempla o que foi dito.

Depois de dizer estas poucas palavras, o Maharaj sentiu-se completamente esgotado. Deitou-se de novo na cama. Com uma voz fraca, acrescentou:

  • O que eu disse esta manhã é toda a Verdade que alguém precisa de saber.’

Ramesh Balsekar, ‘Pointers from Nisargadatta Maharaj’

 

revolta

‘Na tua presente condição és movido pelo princípio de prazer e dor, que é o ego. Estás a colaborar com o ego, não estás enfrentá-lo. Tu nem sequer estás consciente da forma como és completamente influenciado pelas tuas considerações pessoais. Um homem deve estar sempre em revolta contra si próprio, pois o ego, tal como um espelho defeituoso, tudo estreita e tudo distorce. É o pior de todos os tiranos, porque te domina absolutamente.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

meditação

‘ A meditação depende da força da mente. Tem de ser constante, mesmo quando estamos envolvidos no trabalho. Dedicar um tempo particular à meditação é só para os principiantes.’

Ramana Maharshi

 

a arte da meditação

‘A meditação é uma tentativa deliberada de atravessar até aos estados mais elevados da consciência e finalmente passar além destes. A arte da meditação é a arte de mudar o foco da atenção para dimensões cada vez mais subtis, sem perder o controlo sobre as dimensões que são deixadas para trás. De certa forma é como ter a morte sob controlo. Começamos com as dimensões mais básicas: circunstâncias sociais, costumes e hábitos; o espaço físico envolvente, a posição e respiração do corpo; os sentidos, as suas sensações e percepções; a mente, os seus pensamentos e sentimentos; até que todo o mecanismo da personalidade é realizado e firmemente controlado. O estágio final da meditação é alcançado quando o sentido de identidade vai além do ‘eu sou isto e aquilo’, além do ‘eu sou assim’, além do ‘eu sou apenas a testemunha’, além do ‘existe’, além de todas as ideias até ao ser puro impessoalmente pessoal. Mas tens de ter bastante energia se queres explorar a meditação. Não é definitivamente uma ocupação apenas para os tempos livres. Limita todos os teus interesses e actividades ao que é estritamente necessário para ti e para os que dependem de ti. Poupa todas as tuas energias e todo o teu tempo com um único propósito, quebrar a barreira que a tua mente ergueu à tua volta. Acredita em mim, não te vais arrepender.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

Shivaratri – União de Shiva e Shakti

‘Existem dois conceitos de iluminação espiritual. Um consiste no despertar da Shakti, que sobe ao longo de sushumna nadi e une-se a Shiva no sahasrara chakra. Shiva representa a suprema consciência cósmica e Shakti representa a evolução da energia. O kundalini yoga baseia-se neste conceito.

O outro conceito consiste no movimento da consciência para se encontrar com a Shakti, e este processo é o Shivaratri. O conceito do Shivaratri é o despertar da consciência ao nível material da existência e a união com Shakti num ponto mais elevado da evolução. Por isso a palavra usada é ratri, que significa noite escura. O que são a noite e o dia da consciência? Quando a consciência individual experiencia a existência, a realidade objectiva à sua volta, a este estado chamamos o dia da consciência. A noite da consciência é quando a consciência está completamente isolada e não há nenhuma experiência objectiva. Não é possível ouvir, ver, sentir ou conhecer seja o que for. O tempo, o espaço, e a objectividade – três qualidades da mente – desaparecem completamente. Apenas a consciência permanece. Este estado é a noite escura da alma, o estado que precede a iluminação. O Shivaratri é um símbolo do estado espiritual denominado samadhi, mas para nós, o Shivaratri significa o estado que precede o samadhi, a iluminação.

Na mitologia, Shiva, que vivia na floresta, foi ao encontro de Parvati para se casar com ela, a filha dos Himalayas, que vivia no alto da montanha coberta de neve. Ele era o mestre, o guru e senhor dos fantasmas e dos demónios, por isso estes faziam parte da procissão do noivo. Alguns tinham olhos na parte de trás da cabeça, outros não tinham olhos nenhuns e alguns tinham olhos na barriga. Uns tinham apenas uma orelha, outros tinham enormes orelhas de elefante, ou apenas buracos em vez de orelhas. Alguns andavam sobre uma perna, outros com três.

A família de Parvati enviou uma comissão de recepção para os conduzir até à sua casa, mas assim que puseram os olhos em Shiva e nos seus estranhos companheiros, fugiram a correr com medo da própria vida. Na casa de Parvati contaram o que viram cheios de espanto e terror. ‘Oh, ele é terrível! O noivo vem montado num boi. Está todo nú e tem o corpo coberto de cinza. Tem cobras por todo o corpo e os seus companheiro são horríveis!’. A mãe de Parvati ficou muito perturbada. Como podia ela aceitar um genro tão horrível? Mas Parvati permaneceu calama e decidida.

No momento em que a procissão de Shiva entrou no reino dos Himalayas, ele e os seus curiosos companheiros transformaram-se em deslumbrantes seres divinos com rostos belíssimos, roupas finas, flores perfumadas e tudo mais. Os demónios transformaram-se em seres adoráveis. Tudo se transformou num piscar de olhos, e o casamento foi celebrado.

Shiva simboliza a consciência. Na existência individual, a consciência está em movimento ascendente ao encontro de Shakti. Move-se juntamente com todos os instintos e impulsos animais, tudo o que faz parte da personalidade. Mesmo que pratiques yoga, todas essas coisas permanecem contigo – medo, raiva, paixões, preocupações, ansiedades – estás em movimento com todos os teus companheiros. A tua consciência também está a evoluir, a progredir com todos os teus companheiros. Mas chega um ponto no caminho espiritual em que todos estes companheiros são transformados, e o instinto torna-se intuição.

Durante o percurso da evolução espiritual, muitas vezes tentas e falhas – vais ter ao templo para celebrar o teu casamento, a união de Shiva e Shakti, mas quando chegas à porta descobres que a noiva não está lá e que tens de regressar a casa sozinho e desapontado. Passas por momentos de inspiração, e até podes ter um vislumbre do estado supremo, mas é muito incompleto. Quando chega a altura e a transformação ocorre, os companheiros hediondos tornam-se em assistentes divinos de fato e gravata! Os aspectos mais horríveis da tua personalidade tornam-se os teus ornamentos, os teus ajudantes.

Parvati simboliza a energia suprema, também simboliza a kundalini shakti no tantra. A união divina que acontece quando Shiva vem ao encontro de Shakti representa a iluminação na escuridão absoluta.’

Swami Satyananda Saraswati

 

ignorância

‘A aceitação da própria ignorância é a alvorada do conhecimento. Um homem ignorante é aquele que ignora a sua ignorância. Podes dizer que a ignorância não existe, pois no momento em que é observada, desaparece. Por isso podes chamar-lhe inconsciência ou cegueira. Tudo o que vês à tua volta e dentro de ti é o que não conheces nem compreendes. Reconhecer que não conheces e que não compreendes é o verdadeiro conhecimento, o conhecimento de um coração humilde.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

partilha

‘Quem é sábio nada armazena.

Porque o que faz aos outros, por si só faz com que tenha cada vez mais.

Porque o que partilha com as pessoas, por si só faz com que tenha mais que muito.’

Lao Tse

 

Verdade

O menor desvio da verdade multiplica-se ao infinito à medida que avança.

Aristóteles