‘Existem dois conceitos de iluminação espiritual. Um consiste no despertar da Shakti, que sobe ao longo de sushumna nadi e une-se a Shiva no sahasrara chakra. Shiva representa a suprema consciência cósmica e Shakti representa a evolução da energia. O kundalini yoga baseia-se neste conceito.
O outro conceito consiste no movimento da consciência para se encontrar com a Shakti, e este processo é o Shivaratri. O conceito do Shivaratri é o despertar da consciência ao nível material da existência e a união com Shakti num ponto mais elevado da evolução. Por isso a palavra usada é ratri, que significa noite escura. O que são a noite e o dia da consciência? Quando a consciência individual experiencia a existência, a realidade objectiva à sua volta, a este estado chamamos o dia da consciência. A noite da consciência é quando a consciência está completamente isolada e não há nenhuma experiência objectiva. Não é possível ouvir, ver, sentir ou conhecer seja o que for. O tempo, o espaço, e a objectividade – três qualidades da mente – desaparecem completamente. Apenas a consciência permanece. Este estado é a noite escura da alma, o estado que precede a iluminação. O Shivaratri é um símbolo do estado espiritual denominado samadhi, mas para nós, o Shivaratri significa o estado que precede o samadhi, a iluminação.
Na mitologia, Shiva, que vivia na floresta, foi ao encontro de Parvati para se casar com ela, a filha dos Himalayas, que vivia no alto da montanha coberta de neve. Ele era o mestre, o guru e senhor dos fantasmas e dos demónios, por isso estes faziam parte da procissão do noivo. Alguns tinham olhos na parte de trás da cabeça, outros não tinham olhos nenhuns e alguns tinham olhos na barriga. Uns tinham apenas uma orelha, outros tinham enormes orelhas de elefante, ou apenas buracos em vez de orelhas. Alguns andavam sobre uma perna, outros com três.
A família de Parvati enviou uma comissão de recepção para os conduzir até à sua casa, mas assim que puseram os olhos em Shiva e nos seus estranhos companheiros, fugiram a correr com medo da própria vida. Na casa de Parvati contaram o que viram cheios de espanto e terror. ‘Oh, ele é terrível! O noivo vem montado num boi. Está todo nú e tem o corpo coberto de cinza. Tem cobras por todo o corpo e os seus companheiro são horríveis!’. A mãe de Parvati ficou muito perturbada. Como podia ela aceitar um genro tão horrível? Mas Parvati permaneceu calama e decidida.
No momento em que a procissão de Shiva entrou no reino dos Himalayas, ele e os seus curiosos companheiros transformaram-se em deslumbrantes seres divinos com rostos belíssimos, roupas finas, flores perfumadas e tudo mais. Os demónios transformaram-se em seres adoráveis. Tudo se transformou num piscar de olhos, e o casamento foi celebrado.
Shiva simboliza a consciência. Na existência individual, a consciência está em movimento ascendente ao encontro de Shakti. Move-se juntamente com todos os instintos e impulsos animais, tudo o que faz parte da personalidade. Mesmo que pratiques yoga, todas essas coisas permanecem contigo – medo, raiva, paixões, preocupações, ansiedades – estás em movimento com todos os teus companheiros. A tua consciência também está a evoluir, a progredir com todos os teus companheiros. Mas chega um ponto no caminho espiritual em que todos estes companheiros são transformados, e o instinto torna-se intuição.
Durante o percurso da evolução espiritual, muitas vezes tentas e falhas – vais ter ao templo para celebrar o teu casamento, a união de Shiva e Shakti, mas quando chegas à porta descobres que a noiva não está lá e que tens de regressar a casa sozinho e desapontado. Passas por momentos de inspiração, e até podes ter um vislumbre do estado supremo, mas é muito incompleto. Quando chega a altura e a transformação ocorre, os companheiros hediondos tornam-se em assistentes divinos de fato e gravata! Os aspectos mais horríveis da tua personalidade tornam-se os teus ornamentos, os teus ajudantes.
Parvati simboliza a energia suprema, também simboliza a kundalini shakti no tantra. A união divina que acontece quando Shiva vem ao encontro de Shakti representa a iluminação na escuridão absoluta.’
Swami Satyananda Saraswati