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a arte da meditação

‘A meditação é uma tentativa deliberada de atravessar até aos estados mais elevados da consciência e finalmente passar além destes. A arte da meditação é a arte de mudar o foco da atenção para dimensões cada vez mais subtis, sem perder o controlo sobre as dimensões que são deixadas para trás. De certa forma é como ter a morte sob controlo. Começamos com as dimensões mais básicas: circunstâncias sociais, costumes e hábitos; o espaço físico envolvente, a posição e respiração do corpo; os sentidos, as suas sensações e percepções; a mente, os seus pensamentos e sentimentos; até que todo o mecanismo da personalidade é realizado e firmemente controlado. O estágio final da meditação é alcançado quando o sentido de identidade vai além do ‘eu sou isto e aquilo’, além do ‘eu sou assim’, além do ‘eu sou apenas a testemunha’, além do ‘existe’, além de todas as ideias até ao ser puro impessoalmente pessoal. Mas tens de ter bastante energia se queres explorar a meditação. Não é definitivamente uma ocupação apenas para os tempos livres. Limita todos os teus interesses e actividades ao que é estritamente necessário para ti e para os que dependem de ti. Poupa todas as tuas energias e todo o teu tempo com um único propósito, quebrar a barreira que a tua mente ergueu à tua volta. Acredita em mim, não te vais arrepender.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

Shivaratri – União de Shiva e Shakti

‘Existem dois conceitos de iluminação espiritual. Um consiste no despertar da Shakti, que sobe ao longo de sushumna nadi e une-se a Shiva no sahasrara chakra. Shiva representa a suprema consciência cósmica e Shakti representa a evolução da energia. O kundalini yoga baseia-se neste conceito.

O outro conceito consiste no movimento da consciência para se encontrar com a Shakti, e este processo é o Shivaratri. O conceito do Shivaratri é o despertar da consciência ao nível material da existência e a união com Shakti num ponto mais elevado da evolução. Por isso a palavra usada é ratri, que significa noite escura. O que são a noite e o dia da consciência? Quando a consciência individual experiencia a existência, a realidade objectiva à sua volta, a este estado chamamos o dia da consciência. A noite da consciência é quando a consciência está completamente isolada e não há nenhuma experiência objectiva. Não é possível ouvir, ver, sentir ou conhecer seja o que for. O tempo, o espaço, e a objectividade – três qualidades da mente – desaparecem completamente. Apenas a consciência permanece. Este estado é a noite escura da alma, o estado que precede a iluminação. O Shivaratri é um símbolo do estado espiritual denominado samadhi, mas para nós, o Shivaratri significa o estado que precede o samadhi, a iluminação.

Na mitologia, Shiva, que vivia na floresta, foi ao encontro de Parvati para se casar com ela, a filha dos Himalayas, que vivia no alto da montanha coberta de neve. Ele era o mestre, o guru e senhor dos fantasmas e dos demónios, por isso estes faziam parte da procissão do noivo. Alguns tinham olhos na parte de trás da cabeça, outros não tinham olhos nenhuns e alguns tinham olhos na barriga. Uns tinham apenas uma orelha, outros tinham enormes orelhas de elefante, ou apenas buracos em vez de orelhas. Alguns andavam sobre uma perna, outros com três.

A família de Parvati enviou uma comissão de recepção para os conduzir até à sua casa, mas assim que puseram os olhos em Shiva e nos seus estranhos companheiros, fugiram a correr com medo da própria vida. Na casa de Parvati contaram o que viram cheios de espanto e terror. ‘Oh, ele é terrível! O noivo vem montado num boi. Está todo nú e tem o corpo coberto de cinza. Tem cobras por todo o corpo e os seus companheiro são horríveis!’. A mãe de Parvati ficou muito perturbada. Como podia ela aceitar um genro tão horrível? Mas Parvati permaneceu calama e decidida.

No momento em que a procissão de Shiva entrou no reino dos Himalayas, ele e os seus curiosos companheiros transformaram-se em deslumbrantes seres divinos com rostos belíssimos, roupas finas, flores perfumadas e tudo mais. Os demónios transformaram-se em seres adoráveis. Tudo se transformou num piscar de olhos, e o casamento foi celebrado.

Shiva simboliza a consciência. Na existência individual, a consciência está em movimento ascendente ao encontro de Shakti. Move-se juntamente com todos os instintos e impulsos animais, tudo o que faz parte da personalidade. Mesmo que pratiques yoga, todas essas coisas permanecem contigo – medo, raiva, paixões, preocupações, ansiedades – estás em movimento com todos os teus companheiros. A tua consciência também está a evoluir, a progredir com todos os teus companheiros. Mas chega um ponto no caminho espiritual em que todos estes companheiros são transformados, e o instinto torna-se intuição.

Durante o percurso da evolução espiritual, muitas vezes tentas e falhas – vais ter ao templo para celebrar o teu casamento, a união de Shiva e Shakti, mas quando chegas à porta descobres que a noiva não está lá e que tens de regressar a casa sozinho e desapontado. Passas por momentos de inspiração, e até podes ter um vislumbre do estado supremo, mas é muito incompleto. Quando chega a altura e a transformação ocorre, os companheiros hediondos tornam-se em assistentes divinos de fato e gravata! Os aspectos mais horríveis da tua personalidade tornam-se os teus ornamentos, os teus ajudantes.

Parvati simboliza a energia suprema, também simboliza a kundalini shakti no tantra. A união divina que acontece quando Shiva vem ao encontro de Shakti representa a iluminação na escuridão absoluta.’

Swami Satyananda Saraswati

 

imaginação

“Questão: Como é difícil ver no mundo apenas uma construção mental! A realidade tangível do mundo parece tão convincente.

Maharaj: Este é o mistério da imaginação, o facto de parecer tão real. Podes ser celibatário ou casado, um monge ou um homem de família; não é essa a questão. És, ou não, um escravo da tua imaginação? Seja qual for a decisão que tomes, seja qual for o trabalho que faças, sem excepção, será baseado na imaginação; em pressupostos que desfilam disfarçados de factos.

Q: Aqui estou eu, sentado à sua frente. Que parte disto é imaginação?

M: Tudo. Até o espaço e o tempo são imaginados.

Q: Isso significa que eu não existo?

M: Eu também não existo. Toda a existência é imaginária.

Q: O ser também é imaginário?

M: O Ser puro, que tudo prenche e está além de todas as coisas, não é a existência, que é limitada. Toda a limitação é imaginária, só o ilimitado é real.

Q: Quando olha para mim, o que vê?

M: Vejo-te a imaginar que existes.”

Sri Nisargadatta Maharaj

 

entrega ao guru

” A entrega ao guru não significa que a tua vida fique paralisada. Apenas significa que não há diferença entre ti e o guru. O teu corpo e a tua mente, a tua vida quotidiana continuam sem obstrução, mas o que é importante é que começas a pensar que o guru não é diferente de ti. Há um sentimento de unidade total.”

Swami Satyananda Saraswati

 

guru

“Maharaj: É o Guru interno (sadguru) que te leva ao Guru externo, como uma mãe leva o seu filho a um professor. Confia no teu Guru e obedece-lhe, pois ele é o mensageiro do teu Verdadeiro Eu.

Questão: Como encontro um Guru em quem possa confiar?

M: O teu próprio coração te dirá. Não há dificuldade em encontrar um Guru, porque o Guru está à tua procura. O Guru está sempre preparado, quem não está preparado és tu. Tens de estar preparado para aprender, senão, podes encontrar o teu Guru e desperdiçar a tua oportunidade por pura desatenção e teimosia. Toma o meu exemplo, não havia nada de promissor em mim, mas quando encontrei o meu Guru, ouvi, confiei e obedeci.

Q: Não tenho de examinar o mestre antes de me entregar inteiramente nas suas mãos?

M: Por todos os meios, examina-o! Mas o que podes tu descobrir? Só o que ele te parece ser, ao teu próprio nível.

Q: Vou observar se é consistente, se existe harmonia entre a sua vida e o seu ensinamento.

M: Podes encontrar bastante desarmonia – e depois? Isso não prova nada. Só os motivos importam. Como vais conhecer os seus motivos?

Q: Devo ao menos esperar que seja um homem com auto-controlo, que viva uma vida virtuosa.

M: Vais encontrar muitos assim – sem qualquer utilidade para ti. Um Guru pode mostrar-te o caminho de regresso a casa, ao teu verdadeiro Eu. O que tem isto a ver com o carácter, ou temperamento da pessoa que ele te parece ser? Ele não te diz que não é essa pessoa? A única maneira que tens para o julgar, é através da mudança que sentes em ti quando estás na sua companhia. Se sentes mais paz e felicidade, se te compreendes a ti próprio de forma mais clara e profunda, significa que encontraste o homem certo. Leva o tempo que precisares, mas assim que decidires confiar nele, confia absolutamente e segue com fidelidade e integralmente todas as suas instruções. Não é importa se não o aceitas como teu Guru, se te sentires satisfeito apenas com a sua companhia. O satsang basta para te levar à tua meta, desde que não hajam misturas nem perturbações. Mas assim que aceitares alguém como teu Guru, ouve, lembra e obedece. O compromisso pela metade é um sério obstáculo e a causa suficiente para muito sofrimento. O erro nunca é do Guru, a falha está sempre no discípulo que é obtuso e obstinado.

Q: Pode então o Guru dispensar ou desqualificar um discípulo?

M: Não seria um Guru se o fizesse! Ele espera o tempo suficiente até que o discípulo, mais refinado e lúcido, regresse com uma disposição mais receptiva.

Q: Qual é o motivo? Porque tem o Guru tanto trabalho?

M: Sofrimento e o fim do sofrimento. Ele vê as pessoas a sofrer nos seus sonhos e quer acordá-las. O amor não tolera a dor nem o sofrimento. A paciência de um Guru não tem limites, e por isso, não pode ser derrotada. O Guru nunca falha.

Q: O meu primeiro Guru é também o último, ou será que tenho de passar de Guru para Guru?

M: O universo inteiro é o teu Guru. Aprendes com todas as coisas, se estiveres atento e fores inteligente. Se a tua mente estivesse límpida e o teu coração puro, aprenderias com todos que passassem por ti. É porque és indolente e inquieto, que o teu Eu interno se manifesta como Guru externo e te faz confiar nele e obedecer-lhe.

Q: O Guru é inevitável?

M: É como perguntar ‘a mãe é inevitável?’, para expandir a consciência de uma dimensão para outra, precisas de ajuda. Essa ajuda não tem de ter sempre a forma de um ser humano, pode ser uma presença subtil, ou uma centelha de intuição, mas a ajuda tem de aparecer. O Eu interno está sempre a observar, à espera que o filho regresse ao pai. No momento certo ele cuida de tudo com afecto e eficácia. Sempre que for necessário um mensageiro, ou guia, ele envia o Guru para quem necessita.”

Sri Nisargadatta Maharaj

 

a evolução da forma

‘Toda a forma que vês

tem o seu arquétipo no mundo sem-lugar.

Se a forma se desvanece, não importa,

permanece o original.

As belas figuras que viste,

as sábias palavras que escutaste,

não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,

o rio dá água sem cessar.

Por que te lamentas se nenhum dos

dois se detém?

A alma é a fonte e as coisas criadas, os rios.

Enquanto a fonte jorra, correm os rios.

Afasta da mente todo o pesar

e sorve em grandes golos a água deste rio,

que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,

uma escada foi posta diante de ti

para que escapasses.

Primeiro, foste mineral;

depois, tornaste-te planta

e, mais tarde, animal.

Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,

com conhecimento, razão e fé.

Contempla o teu corpo; um punhado de pó

vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido a tua jornada,

decerto hás-de regressar como anjo;

depois disso, terás terminado de vez com a terra,

e a tua estação será o céu.

Passa de novo pela vida angelical,

entra naquele oceano,

e que a tua gota se torne o mar,

cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho a que chamas corpo

e diz sempre Um com toda a alma.

Se o teu corpo envelhece, que importa?

Ainda é fresca a tua alma.’

Rumi

 

desejo de libertação

‘Maharaj: O desejo de acabar com todos os desejos é o desejo mais peculiar, tal como o medo de ter medo é o medo mais peculiar. Um impede-te de agarrar e o outro de fugir. Podes usar as mesmas palavras, desejo e medo, mas os estados não são os mesmos que os outros desejos e medos. O homem que procura a realização não está viciado nos desejos; ele é alguém que vai contra os desejos, não com eles. Uma vontade geral de libertação é apenas o início; encontrar os meios adequados e usá-los é o próximo passo. Aquele que procura libertar-se tem em vista uma única meta: descobrir o seu próprio e verdadeiro ser. De todos os desejos é o mais ambicioso, pois nada nem ninguém o pode satisfazer; quem procura e o que é procurado são o mesmo e apenas a procura importa.

Questão: A procura vai chegar ao fim. Quem procura permanece.

M: Não, aquele que procura vai dissover-se, a procura permanece. A procura é a derradeira e intemporal realidade.

Q: Procura significa falta, carência, privação e imperfeição.

M: Não, significa recusa e rejeição do incompleto e do imperfeito. A procura da realidade é o próprio movimento da realidade. De certa forma toda a procura é pela felicidade real, ou felicidade do real. Mas o que aqui entendemos como procura é a procura do próprio Eu como raiz da consciência, como luz por trás da mente. Esta procura nunca vai terminar, enquanto o desejo por tudo o resto tem de terminar, para que o verdadeiro progresso possa acontecer.

Temos de compreender que a procura da realidade, ou Deus, ou Guru e a procura do Eu são a mesma coisa; quando um destes é encontrado, todos são encontrados. Quando ‘Eu sou’ e ‘Deus é’ se tornam indistinguíveis na tua mente, alguma coisa vai acontecer e tu vais saber sem qualquer sombra de dúvida que Deus é porque Tu és, Tu és porque Deus é. Os dois são um só.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

agora

‘Ouvi de que falavam aqueles que falavam, ouvi o que diziam acerca do princípio e do fim,
Mas eu não falo do princípio nem do fim.

Nunca houve mais princípio do que agora,
Nem mais juventude ou velhice do que agora,
E nunca haverá mais perfeição do que agora,
Nem mais Céu ou Inferno do que agora.

Ímpeto, ímpeto, ímpeto,
Sempre o ímpeto procriador do mundo.

Das trevas avançam os opostos uguais, sempre a matéria e o incremento, o sexo sempre,
Sempre a malha da identidade, sempre a diferença, sempre a progenitura da vida.

É inútil pormenorizar, os cultos e os incultos sabem que assim é.

Mais do que certo, de pé e firme, muito firme, entalhado nas vigas,
Possante como um cavalo, afectuoso, altivo, eléctrico,
Aqui estamos, eu e este mistério.

Clara e suave é a minha alma, claro e suave tudo o que não é a minha alma.

Faltando um, faltam ambos, e o visível é prova do invisível,
Até que se torne invisível e por sua vez seja provado.’

Walt Whitman

 

gunas

‘Questão: Se bem entendo, vivemos em diferentes níveis e a vida em cada nível requer energia. O Eu pela sua própria natureza deleita-se com tudo e a sua energia flui para o exterior. Não será o propósito da meditação reter a energia nos níveis mais elevados, ou empurrá-la para trás e para cima, de maneira a que os níveis mais elevados possam também florescer?

Maharaj: Não é tanto uma questão de níveis mas de gunas (qualidades). A meditação é uma actividade sattvica e visa a eliminação completa de tamas (inércia) e rajas (força motriz). Sattva (harmonia) pura, é a perfeita liberdade da indolência e da inquietude.

Q: Como fortalecer e purificar sattva?

M: Sattva é sempre pura e forte. É como o sol. Pode parecer obscurecido pelas nuvens e pelo pó, mas só do ponto de vista do observador. Lida com as causas que obscurecem, não com o sol.

Q: Para que serve sattva?

M: Para que serve a verdade, a bondade, a harmonia, a beleza? São a sua própria meta. Manifestam-se espontaneamente e sem esforço, quando as coisas são deixadas em si mesmas, sem interferência, sem serem evitadas ou desejadas, ou conceptualizadas, mas simplesmente experienciadas com total consciência. Essa própria consciência é sattva. Não usa as coisas nem as pessoas – realiza-as.

Q: Se não posso melhorar sattva, lido apenas com tamas e rajas? Como posso lidar com elas?

M: Ao observar a sua influência em ti e sobre ti. Toma consciência do seu funcionamento, observa as suas expressões nos teus pensamentos, palavras e acções, e gradualmente o seu domínio sobre ti vai diminuir e a luz clara de sattva vai emergir. Não é um processo difícil, nem prolongado; a seriedade é a única condição para o sucesso.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

teorias

‘Questão: Existem muitas teorias sobre a natureza do homem e do universo. A teoria da criação, a teoria da ilusão, a teoria do sonho – inumeráveis teorias. Qual delas é verdadeira?

Maharaj: Todas são verdadeiras, todas são falsas. Podes escolher a que gostares mais.

Questão: O Maharaj parece estar a favor da teoria do sonho.

Maharaj: Isso são apenas formas de juntar palavras. Alguns preferem umas, outros preferem outras. As teorias não estão certas nem erradas. São tentativas para explicar o inexplicável. Não é a teoria que importa, mas a forma como é testada. O teste da teoria é que a torna frutífera. Experimenta qualquer teoria que gostes – se fores verdadeiramente sério e honesto, a realidade está ao teu alcance. Enquanto ser vivo, estás apanhado numa situação insustentável e dolorosa, e procuras uma saída. Oferecem-te vários planos da tua prisão, nenhum deles exactamente verdadeiro. Todos têm algum valor, mas apenas se fores radicalmente sério. É a seriedade que liberta e não a teoria.

Questão: A teoria pode ser enganadora e a seriedade – cega.

Maharaj: A tua sinceridade guiar-te-á. Devoção à liberdade e perfeição farão com que abandones todas as teorias e sistemas, e vivas com sabedoria, inteligência e amor activo. As teorias podem ser boas como ponto de partida, mas têm de ser abandonadas, quanto mais cedo – melhor.’

Sri Nisargadatta Maharaj