Archive for January, 2009

vida

‘Tudo o que vive provém daquilo que morreu.’

Platão

 

liberdade

‘Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser.’

Goethe

 

aprendizagem

‘Deve-se aprender lendo mais em profundidade do que em largura.’

Quintiliano

 

morte

‘O homem não tem poder sobre nada enquanto tem medo da morte. E quem não tem medo da morte possui tudo.’

Tolstoi

 

Bhagavad Gita

SWAMI SATYANANDA SARASWATI
Interpretação Esotérica do Bhagavad Gita
excerto da palestra dada em 21.09.1967

Kurukshetra é o local histórico onde é travada a grande guerra do Mahabharata (n. do t.: poema épico indiano, composto por mais de 74 000 versos, o mais extenso do mundo). No Gita (livro VI do Mahabharata) a situação é a seguinte: duas forças opostas enfrentam-se para a batalha final. Arjuna é o líder de uma das duas forças em oposição e Krishna é o seu cocheiro. Arjuna ordena a Krishna que posicione o coche de modo a poder observar os dois exércitos, para que possa ver contra quem tem de lutar. Quando o coche se encontra sobre o campo de batalha, Arjuna vê nos dois lados todos os seus amigos e familiares preparados para lutar uns com os outros. A idéia de destruição massiva certamente atravessa a sua mente e ele fica aterrorizado. Portanto, Arjuna decide não lutar e conta a Krishna a sua decisão. Primeiro Krishna dita-lhe algumas instruções e depois dá-lhe o sermão que conhecemos como Gita.

Aqui temos de entender a situação da seguinte maneira. As duas tendências da personalidade individual estão em constante confronto na batalha da vida. Aquele que quiser ir longe e vencer no caminho espiritual tem de enfrentar a oposição e conseguir a vitória a qualquer custo. Não pode fugir. No Gita os Pandavas e os Kauravas são as duas forças preparadas para a batalha. Os Pandavas representam o divino e as forças virtuosas e os Kauravas representam as forças demoníacas, as forças inferiores do ser humano. Estas duas forças estão face a face, e assim começa a batalha. De facto, a guerra do Mahabharata é a batalha que está a ser travada em todos e cada um de nós. Se pensam que se conseguem retirar e escapar aos confrontos e obstáculos da vida, estão muito longe da verdade. Este é o ensinamento essencial do Gita.

No Gita está escrito que todos têm de lutar, sejam eles quem forem. Mesmo alguém que tenha renunciado à propriedade e à posição social, tem de lutar. Algumas vezes a guerra é externa, outras vezes é completamente interna. Muitas pessoas não entendem que batalha é esta. No conflito que ocorre em cada indivíduo sem interrupção, de momento a momento, não é apenas a mente que está em confronto, mesmo as células físicas do nosso corpo lutam pela sobrevivência. Há forças inferiores no corpo que tentam destruir o ser físico, mas existem também outras forças que oferecem resistência e assim a vida continua.

Do mesmo modo, há uma batalha, um conflicto que ocorre a nível psicológico em todos os momentos, seja consciente ou inconscientemente. Se não tiverem trabalho nem nada para fazer, se tiverem tempo para pensar e observar esta luta interna, ficarão surpresos ao ver que não passa sequer um momento sem que dois pensamentos colidam um com o outro. É um fenómeno ímpar. Aqueles que tiverem tempo, podem mergulhar dentro de si mesmos e observar os seus pensamentos como testemunhas silenciosas. Nas camadas mais profundas do ser individual podem ver os seus pensamentos em colisão, sobrevivendo e morrendo constantemente. Nascem pensamentos novos, pensamentos velhos morrem. Esta é a guerra psicológica que acontece em todos e cada um de nós.

Para além disto, o jiva, a alma individual, que está presa por avidya (ignorância, conhecimento errôneo), quer ser libertada. É como um homem paralisado que se quer levantar e não consegue. Jiva é assim. Quer transcender as limitações da mente e do corpo, de avidya e maya (véu da ilusão), mas não consegue. É por essa razão que tem de lutar constantemente. Mas lutar com quem? Com os seus próprios samskaras. O que são esses samskaras? São a natureza demoníaca, as forças obscuras do indivíduo. Chamamos-lhes demónios ou rakshasas. Estas são as forças, e se o jivatman ou alma individual se quer libertar das limitações da mente, do corpo e do ambiente que o cerca, a primeira coisa a fazer é travar uma guerra consigo mesmo.

Se não houver morte na vida, não há evolução. Os hábitos têm de morrer, os pensamentos têm de morrer. Os pensamentos que ontem tanto estimavam, hoje não devem sobreviver. Não se prendam a velhos pensamentos e hábitos, que são as mais rígidas fraquezas de cada um. Estamos tão habituados ao nosso nome, ao nosso corpo, à nossa religião, aos nossos hábitos, à nossa cultura, à nossa ética, e tantas outras coisas, que queremos que sobrevivam, mas têm de morrer. Tudo na vida se torna velho e inútil. Portanto, a alma individual tem de matar, de destruir todas as imposições exteriores. Quando todos os elementos estranhos à essência individual forem eliminados, o verdadeiro elemento essencial passará a brilhar poderoso como a energia atómica. É uma divisão completa, uma desintegração completa da matéria estranha à personalidade individual.

Assim, esta guerra é uma guerra espiritual na qual Arjuna é o jivatman. O corpo é o coche e o mundo é Kurukshetra. E quem será Krishna? O vosso ser supremo, o habitante da vossa alma, o cocheiro que comanda o coche mesmo quando dormem. Os vossos pulmões continuam a mover-se mesmo quando falam, mesmo quando pensam, os pulmões continuam a respirar. Estes são alguns dos factores da vida baseados na natureza, e o cocheiro destes fenómenos, deste corpo, é Krishna. A todo o momento, o ser além da inconsciência é Krishna.
O ser aquém da inconsciência é Arjuna. Existe um enorme fosso de diferença entre Krishna e Arjuna. Krishna dá instruções a Arjuna. Mas Arjuna não consegue entender porque a sua linguagem é a do subconsciente e Krishna usa a linguagem do superconsciente. O fosso que os separa só pode ser ultrapassado quando o indivíduo tem a visão interior da realidade cósmica durante os momentos de inspiração e transe. Quando essa visão surge, a diferença entre superconsciente e subconsciente é ultrapassada, é erguida uma ponte sobre o fosso que os separa. Depois disso o jivatman consegue entender tudo o que diz o paramatman, ou alma suprema.

Também se diz que o sermão de Krishna é incessante, não só no Gita mas também na guerra interna da vossa vida. Quando se tem ouvidos para escutar, mente para entender e poder para mergulhar profundamente no interior de nós mesmos, percebemos que o sermão continua sem cessar. Esse é o sermão eterno que tem sido entendido como a voz interior da alma, como a voz dos céus por onde Deus fala. Assim, neste contexto esotérico, entendemos as instruções do Gita como a voz eterna da alma, e Arjuna como jivatman ou consciência individual. Estas são as duas forças do indivíduo que são bem conhecidas por todos nós.

Agora, o campo de batalha é chamado Kurukshetra. Em Sânscrito, kuru significa ‘acção’ e kshetra significa ‘campo’, o campo de acção. Sabem perfeitamente que este mundo não é nada mais que um campo de acção; ou trabalhas ou morres. Isto é Kurukshetra, mas juntámos-lhe também uma outra expressão – Dharmakshetra. Não é só o campo de acção, é também o campo do dharma. Dharma tem um significado diferente na literatura Sânscrita e na religião Hindu, mas quando falamos de dharma não estamos preocupados com o significado religioso.
Entendemos dharma como dever eterno, o dever que se espera que todo e qualquer indivíduo cumpra, tanto no contexto social como no contexto pessoal. Isto é chamado de dharma. Não é religião; não é uma ida ao templo ou à igreja para prestar obediência; não é ter um mala (rosário que normalmente tem 108 contas) e fazer japa (repetição de mantras). Tudo isto é chamado de vida espiritual. Na India chamamos-lhe adhyatma (espiritual). Uma pessoa é espiritual quando vai ao templo, mas por dharma queremos expressar a realização do dever para consigo próprio e para com toda a criação. Deste modo, este mundo é também Dharmakshetra; neste mundo podem trabalhar para vocês e também para os outros.

O primeiro sloka (estrofe) do Gita começa com Dharmakshetra-Kurukshetra. O rei Dhritarashtra pergunta ao seu narrador de guerra, ‘Ó Sanjaya diz-me por favor, o que fizeram os meus filhos e os filhos de Pandu quando se reuniram no campo de batalha de Dharmakshetra-Kurukshetra com o desejo de lutarem?’ Esta questão é respondida no último sloka do Gita. Nos 698 slokas intermédios não há nenhuma resposta, apenas a narrativa dos factos. A resposta que ele dá no final é: ‘Onde quer que esteja Krishna, o senhor do yoga, e onde quer que esteja Arjuna, o arqueiro, estão garantidas a prosperidade, a vitória , a glória e a rectidão. Esta é a minha convicção.’
Também significa que se estabelecermos uma identificação com a consciência suprema, mantendo ao mesmo tempo a consciência individual como um jivan mukta, então a prosperidade, a vitória , a glória e a rectidão estão asseguradas. Significa que a batalha irá ser vencida por essa pessoa e por mais nenhuma. Temos de entender neste sloka, que para vencer a batalha da vida, temos que criar uma conexão com a consciência cósmica, enquanto mantemos a consciência individual que temos no presente. Resumidamente, este é o significado esotérico de todo o Gita. Não precisamos de nos preocupar com o significado histórico, porque somos estudantes de yoga e não estudantes de história.

O que é o yoga? Yoga é união, reunião, junção, duas coisas que se tornam uma, três coisas que se tornam uma, muitas coisas que se tornam uma só. Multiplicidade ou diversidade fundindo-se em unidade é o processo do yoga. Muitos rios que começam em diferentes fontes e acabam todos no mesmo oceano. As actividades mentais e as actividades físicas, quando se fundem num mesmo objectivo levam ao yoga, são yoga. Yoga significa ‘união’.

O Gita inteiro fala sobre a união da alma individual, com a alma cósmica ou consciência cósmica. Vão perceber que o herói principal, Arjuna, estava iludido. Ele não estava consciente dos verdadeiros factos da vida espiritual. Ele não conhecia a vida espiritual de todo. Era um grande guerreiro, um grande líder. Era um homem poderoso, influente, de grande valor e grande cultura. Tudo isto é verdade, mas apesar disso, não conhecia a realidade da vida depois da vida. Ele estava iludido e no momento em que se confrontou com os enormes exércitos à sua frente, pensou que não haveria vida para além desta. Ele cometeu um grande erro. Pensou que era ele mesmo que de facto lutava e matava, e estava também cego por outras ilusões. O Senhor Krishna dissipou todas essas ilusões e aproximou-o da realidade suprema que estava dentro dele próprio.

extraído e traduzido do livro “Early Teachings of Swami Satyananda”

 

atenção em acção

‘Aplica-te a todo o instante com toda a atenção… para terminar o trabalho que tens nas tuas mãos… e liberta-te de todas as outras preocupações. Delas ficarás livre se executares cada acção da tua vida como se fosse a última.’

Marco Aurélio

 

auto-controle

‘Não há quem sustente uma luta mais árdua que aquele que se tenta vencer a si próprio.’

Thomas Kempis

 

começo

‘Onde quer que você esteja, esse é o ponto de partida.’

Kabir