entrega ao guru

” A entrega ao guru não significa que a tua vida fique paralisada. Apenas significa que não há diferença entre ti e o guru. O teu corpo e a tua mente, a tua vida quotidiana continuam sem obstrução, mas o que é importante é que começas a pensar que o guru não é diferente de ti. Há um sentimento de unidade total.”

Swami Satyananda Saraswati

 

guru

“Maharaj: É o Guru interno (sadguru) que te leva ao Guru externo, como uma mãe leva o seu filho a um professor. Confia no teu Guru e obedece-lhe, pois ele é o mensageiro do teu Verdadeiro Eu.

Questão: Como encontro um Guru em quem possa confiar?

M: O teu próprio coração te dirá. Não há dificuldade em encontrar um Guru, porque o Guru está à tua procura. O Guru está sempre preparado, quem não está preparado és tu. Tens de estar preparado para aprender, senão, podes encontrar o teu Guru e desperdiçar a tua oportunidade por pura desatenção e teimosia. Toma o meu exemplo, não havia nada de promissor em mim, mas quando encontrei o meu Guru, ouvi, confiei e obedeci.

Q: Não tenho de examinar o mestre antes de me entregar inteiramente nas suas mãos?

M: Por todos os meios, examina-o! Mas o que podes tu descobrir? Só o que ele te parece ser, ao teu próprio nível.

Q: Vou observar se é consistente, se existe harmonia entre a sua vida e o seu ensinamento.

M: Podes encontrar bastante desarmonia – e depois? Isso não prova nada. Só os motivos importam. Como vais conhecer os seus motivos?

Q: Devo ao menos esperar que seja um homem com auto-controlo, que viva uma vida virtuosa.

M: Vais encontrar muitos assim – sem qualquer utilidade para ti. Um Guru pode mostrar-te o caminho de regresso a casa, ao teu verdadeiro Eu. O que tem isto a ver com o carácter, ou temperamento da pessoa que ele te parece ser? Ele não te diz que não é essa pessoa? A única maneira que tens para o julgar, é através da mudança que sentes em ti quando estás na sua companhia. Se sentes mais paz e felicidade, se te compreendes a ti próprio de forma mais clara e profunda, significa que encontraste o homem certo. Leva o tempo que precisares, mas assim que decidires confiar nele, confia absolutamente e segue com fidelidade e integralmente todas as suas instruções. Não é importa se não o aceitas como teu Guru, se te sentires satisfeito apenas com a sua companhia. O satsang basta para te levar à tua meta, desde que não hajam misturas nem perturbações. Mas assim que aceitares alguém como teu Guru, ouve, lembra e obedece. O compromisso pela metade é um sério obstáculo e a causa suficiente para muito sofrimento. O erro nunca é do Guru, a falha está sempre no discípulo que é obtuso e obstinado.

Q: Pode então o Guru dispensar ou desqualificar um discípulo?

M: Não seria um Guru se o fizesse! Ele espera o tempo suficiente até que o discípulo, mais refinado e lúcido, regresse com uma disposição mais receptiva.

Q: Qual é o motivo? Porque tem o Guru tanto trabalho?

M: Sofrimento e o fim do sofrimento. Ele vê as pessoas a sofrer nos seus sonhos e quer acordá-las. O amor não tolera a dor nem o sofrimento. A paciência de um Guru não tem limites, e por isso, não pode ser derrotada. O Guru nunca falha.

Q: O meu primeiro Guru é também o último, ou será que tenho de passar de Guru para Guru?

M: O universo inteiro é o teu Guru. Aprendes com todas as coisas, se estiveres atento e fores inteligente. Se a tua mente estivesse límpida e o teu coração puro, aprenderias com todos que passassem por ti. É porque és indolente e inquieto, que o teu Eu interno se manifesta como Guru externo e te faz confiar nele e obedecer-lhe.

Q: O Guru é inevitável?

M: É como perguntar ‘a mãe é inevitável?’, para expandir a consciência de uma dimensão para outra, precisas de ajuda. Essa ajuda não tem de ter sempre a forma de um ser humano, pode ser uma presença subtil, ou uma centelha de intuição, mas a ajuda tem de aparecer. O Eu interno está sempre a observar, à espera que o filho regresse ao pai. No momento certo ele cuida de tudo com afecto e eficácia. Sempre que for necessário um mensageiro, ou guia, ele envia o Guru para quem necessita.”

Sri Nisargadatta Maharaj

 

água e mel

‘A mente existe em dois estados: como água e como mel. A água move-se à mínima perturbação, enquanto o mel, por mais que o perturbem, rapidamente regressa à imobilidade.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

a evolução da forma

‘Toda a forma que vês

tem o seu arquétipo no mundo sem-lugar.

Se a forma se desvanece, não importa,

permanece o original.

As belas figuras que viste,

as sábias palavras que escutaste,

não te entristeças se pereceram.

Enquanto a fonte é abundante,

o rio dá água sem cessar.

Por que te lamentas se nenhum dos

dois se detém?

A alma é a fonte e as coisas criadas, os rios.

Enquanto a fonte jorra, correm os rios.

Afasta da mente todo o pesar

e sorve em grandes golos a água deste rio,

que a água não seca, ela não tem fim.

Desde que chegaste ao mundo do ser,

uma escada foi posta diante de ti

para que escapasses.

Primeiro, foste mineral;

depois, tornaste-te planta

e, mais tarde, animal.

Como pode ser isto segredo para ti?

Finalmente foste feito homem,

com conhecimento, razão e fé.

Contempla o teu corpo; um punhado de pó

vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido a tua jornada,

decerto hás-de regressar como anjo;

depois disso, terás terminado de vez com a terra,

e a tua estação será o céu.

Passa de novo pela vida angelical,

entra naquele oceano,

e que a tua gota se torne o mar,

cem vezes maior que o Mar de Oman.

Abandona este filho a que chamas corpo

e diz sempre Um com toda a alma.

Se o teu corpo envelhece, que importa?

Ainda é fresca a tua alma.’

Rumi

 

desejo de libertação

‘Maharaj: O desejo de acabar com todos os desejos é o desejo mais peculiar, tal como o medo de ter medo é o medo mais peculiar. Um impede-te de agarrar e o outro de fugir. Podes usar as mesmas palavras, desejo e medo, mas os estados não são os mesmos que os outros desejos e medos. O homem que procura a realização não está viciado nos desejos; ele é alguém que vai contra os desejos, não com eles. Uma vontade geral de libertação é apenas o início; encontrar os meios adequados e usá-los é o próximo passo. Aquele que procura libertar-se tem em vista uma única meta: descobrir o seu próprio e verdadeiro ser. De todos os desejos é o mais ambicioso, pois nada nem ninguém o pode satisfazer; quem procura e o que é procurado são o mesmo e apenas a procura importa.

Questão: A procura vai chegar ao fim. Quem procura permanece.

M: Não, aquele que procura vai dissover-se, a procura permanece. A procura é a derradeira e intemporal realidade.

Q: Procura significa falta, carência, privação e imperfeição.

M: Não, significa recusa e rejeição do incompleto e do imperfeito. A procura da realidade é o próprio movimento da realidade. De certa forma toda a procura é pela felicidade real, ou felicidade do real. Mas o que aqui entendemos como procura é a procura do próprio Eu como raiz da consciência, como luz por trás da mente. Esta procura nunca vai terminar, enquanto o desejo por tudo o resto tem de terminar, para que o verdadeiro progresso possa acontecer.

Temos de compreender que a procura da realidade, ou Deus, ou Guru e a procura do Eu são a mesma coisa; quando um destes é encontrado, todos são encontrados. Quando ‘Eu sou’ e ‘Deus é’ se tornam indistinguíveis na tua mente, alguma coisa vai acontecer e tu vais saber sem qualquer sombra de dúvida que Deus é porque Tu és, Tu és porque Deus é. Os dois são um só.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

agora

‘Ouvi de que falavam aqueles que falavam, ouvi o que diziam acerca do princípio e do fim,
Mas eu não falo do princípio nem do fim.

Nunca houve mais princípio do que agora,
Nem mais juventude ou velhice do que agora,
E nunca haverá mais perfeição do que agora,
Nem mais Céu ou Inferno do que agora.

Ímpeto, ímpeto, ímpeto,
Sempre o ímpeto procriador do mundo.

Das trevas avançam os opostos uguais, sempre a matéria e o incremento, o sexo sempre,
Sempre a malha da identidade, sempre a diferença, sempre a progenitura da vida.

É inútil pormenorizar, os cultos e os incultos sabem que assim é.

Mais do que certo, de pé e firme, muito firme, entalhado nas vigas,
Possante como um cavalo, afectuoso, altivo, eléctrico,
Aqui estamos, eu e este mistério.

Clara e suave é a minha alma, claro e suave tudo o que não é a minha alma.

Faltando um, faltam ambos, e o visível é prova do invisível,
Até que se torne invisível e por sua vez seja provado.’

Walt Whitman

 

gunas

‘Questão: Se bem entendo, vivemos em diferentes níveis e a vida em cada nível requer energia. O Eu pela sua própria natureza deleita-se com tudo e a sua energia flui para o exterior. Não será o propósito da meditação reter a energia nos níveis mais elevados, ou empurrá-la para trás e para cima, de maneira a que os níveis mais elevados possam também florescer?

Maharaj: Não é tanto uma questão de níveis mas de gunas (qualidades). A meditação é uma actividade sattvica e visa a eliminação completa de tamas (inércia) e rajas (força motriz). Sattva (harmonia) pura, é a perfeita liberdade da indolência e da inquietude.

Q: Como fortalecer e purificar sattva?

M: Sattva é sempre pura e forte. É como o sol. Pode parecer obscurecido pelas nuvens e pelo pó, mas só do ponto de vista do observador. Lida com as causas que obscurecem, não com o sol.

Q: Para que serve sattva?

M: Para que serve a verdade, a bondade, a harmonia, a beleza? São a sua própria meta. Manifestam-se espontaneamente e sem esforço, quando as coisas são deixadas em si mesmas, sem interferência, sem serem evitadas ou desejadas, ou conceptualizadas, mas simplesmente experienciadas com total consciência. Essa própria consciência é sattva. Não usa as coisas nem as pessoas – realiza-as.

Q: Se não posso melhorar sattva, lido apenas com tamas e rajas? Como posso lidar com elas?

M: Ao observar a sua influência em ti e sobre ti. Toma consciência do seu funcionamento, observa as suas expressões nos teus pensamentos, palavras e acções, e gradualmente o seu domínio sobre ti vai diminuir e a luz clara de sattva vai emergir. Não é um processo difícil, nem prolongado; a seriedade é a única condição para o sucesso.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

gota de orvalho

‘Quando uma gota de orvalho escorre para o mar, acontece um grande milagre: o milagre do mar a entrar na gota de orvalho.’

Swami Satyananda Saraswati

 

génio e coragem

‘Qualquer tolo inteligente pode tornar as coisas maiores, mais complexas, e mais violentas. É necessário um toque de génio – e bastante coragem – para nos movermos na direcção oposta.’

Albert Einstein

 

teorias

‘Questão: Existem muitas teorias sobre a natureza do homem e do universo. A teoria da criação, a teoria da ilusão, a teoria do sonho – inumeráveis teorias. Qual delas é verdadeira?

Maharaj: Todas são verdadeiras, todas são falsas. Podes escolher a que gostares mais.

Questão: O Maharaj parece estar a favor da teoria do sonho.

Maharaj: Isso são apenas formas de juntar palavras. Alguns preferem umas, outros preferem outras. As teorias não estão certas nem erradas. São tentativas para explicar o inexplicável. Não é a teoria que importa, mas a forma como é testada. O teste da teoria é que a torna frutífera. Experimenta qualquer teoria que gostes – se fores verdadeiramente sério e honesto, a realidade está ao teu alcance. Enquanto ser vivo, estás apanhado numa situação insustentável e dolorosa, e procuras uma saída. Oferecem-te vários planos da tua prisão, nenhum deles exactamente verdadeiro. Todos têm algum valor, mas apenas se fores radicalmente sério. É a seriedade que liberta e não a teoria.

Questão: A teoria pode ser enganadora e a seriedade – cega.

Maharaj: A tua sinceridade guiar-te-á. Devoção à liberdade e perfeição farão com que abandones todas as teorias e sistemas, e vivas com sabedoria, inteligência e amor activo. As teorias podem ser boas como ponto de partida, mas têm de ser abandonadas, quanto mais cedo – melhor.’

Sri Nisargadatta Maharaj