declaração de liberdade

‘Seja o que for que te prenda ou limite,

declara-te a ti próprio livre dessa condição agora mesmo.

Não existe nada no mundo externo,

nenhuma pessoa, nenhuma condição ou circunstância,

que te possa tirar a liberdade

que te pertence em espírito.

Em vez de desejares ser livre

para viveres de forma diferente,

aceita a verdade de que agora mesmo

Tu és livre.

Livre para mudar a tua forma de pensar,

Livre para mudar a tua perspectiva sobre a vida,

Livre para ser tudo o que tu queres ser.

 

Faz deste dia um dia de liberdade,

Liberdade espiritual,

declara-te a ti próprio livre da ansiedade e do medo,

livre de qualquer crença na sorte ou na limitação.’

Swami Satyananda Saraswati

 

conhecimento

‘Quanto mais conhecemos, mais amamos.’

Leonardo da Vinci

 

Navaratri

‘O Navaratri é um dos métodos mais antigos para reconhecer a força, a Shakti, o poder e a sabedoria de Deus. Existe muita especulação sobre quem ou o quê será Deus. No entanto, enquanto todos afirmam falar a verdade, são raros os que podem afirmar que vêem a verdade.

Todos nós temos um corpo mas também inerente no corpo está a força ou Shakti. De onde vem a força quando tens de ganhar uma corrida de 100 metros? Ou quando precisas de levantar 100 kg sobre os ombros? Essa força está contida no corpo. Quando a energia no corpo está concentrada, é reconhecida como força. De igual modo, quando a energia de Deus está concentrada, quando as três qualidades, omnisciência, omnipresença e omnipotência estão concentradas, o que se manifesta no ponto de concentração é a criação, Shakti. Tal como a confluência de energia no teu corpo é conhecida como força, também a confluência da Shakti, a energia divina, é a expressão da concentração de Deus. É aqui que a Mãe Natureza, a criadora, é percepcionada como um dos multifacetados rostos de Deus.

Estando inerente no corpo, esta força não é diferente do corpo. Por isso é visualizada como força vital, a vida como princípio. Diz-se que Deus dorme nos minerais, abre os olhos nos vegetais, anda nos animais e pensa nos seres humanos. Se assim é, se Deus em nós é sabedoria, saber quando dar um passo em frente e quando dar um passo atrás, sem arrogância; se somos assim, podemos adorar a natureza cósmica, a Mãe Cósmica.

O Navaratri, o período de nove dias de sadhana, é tradicionalmente celebrado como um festival. Durante este período, de acordo com a mitologia, a Shakti (Durga) foi vitoriosa sobre as forças negativas ou demónios.

Tradicionalmente, é a vitória da Shakti que é lembrada durante estes nove dias. O Navaratri acontece duas vezes durante o ano, no mês de Abril e no mês de Setembro. Para os aspirantes espirituais o Navaratri tem um significado especial, devido ao alinhamento de fé e devoção de todas as pessoas que celebram este período, é criado um ambiente em que qualquer forma de sadhana espiritual ou pooja se torna conducente à evolução espiritual. A estória por trás do Navaratri também é simbólica.

De acordo com o mito e a com a literatura disponível, as forças demoníacas do mundo estavam a ganhar poder e a subjugar as forças divinas. Então todos os devas se juntaram e rezaram pela libertação – mukti, destas forças demoníacas. A Shakti inerente em todos os devas uniu-se e assumiu a forma da Mahashakti, cujo nome é Durga, com todas suas manifestações e formas. Durga, criada pelos poderes e qualidades dos devas, lutou contra os demónios e foi vitoriosa.

Nas nossas próprias vidas podemos sentir que as qualidades ou tendências negativas dominam a bondade inata que está em todos os nós. A bondade que assim se manifesta, está tingida pelas cores que assimilou das qualidades negativas. Quando a bondade se manifesta desta forma, torna-se uma qualidade egoísta. Um exemplo deste fenómeno é o facto de que apesar das pessoas falarem de compaixão e de amor, este amor não é um sentimento universal por todos os seres. O sentimento de amor e compaixão está impregnado por motivações que são egoístas, pessoais e individualistas.

Deste modo, as boas qualidades estão sempre influenciadas pelos gunas. Os traços negativos parecem ter mais poder na vida externa, porque o mundo manifestado é um processo de experiência direccionada para o exterior.

A comunicação é para fora. Todo o espectro da vida está orientado para a interacção com o mundo externo dos nomes, formas, ideias e objectos, dentro dos limites do tempo e do espaço. As tendências negativas ou limitadoras impedem o nosso crescimento e a expressão da nossa natureza positiva no mundo manifestado.

A vida humana tem uma qualidade e uma natureza particular que está constantemente sujeita às influências da prakriti, maya, e dos três gunas.

Sob a influência da prakriti, todos os seres agem de uma certa forma. Sob a influência do purusha, todos os seres agem de uma outra forma. Na prakriti, maya, predominam os gunas. No purusha, no divino, predominam as qualidades luminosas. Quando se carrega o fardo da influência da prakriti, na forma de ambições, desejos, querer um determinado estatuto para si próprio, então aí as qualidades divinas e positivas ficam suprimidas, porque a sua natureza não é querer, mas sim dar. Surge então um conflito entre o desejo de obter e o desejo de dar, entre a motivação egoísta e a motivação universal.

Esta é a luta entre os demónios e a Shakti. São chamados de demónios só para nos tornar mais conscientes da natureza negativa e limitada de determinados sentimentos, ideias e desejos. A Shakti, ou Durga, a força transformadora, reorienta estas expressões limitadas da vida no sentido de uma evolução positiva. É esta evolução positiva que é conhecida como a vitória de Durga. Os 32 nomes da Durga representam a transformação da consciência do insignificante (o negativo) para o sublime (o transcendente). Estes nomes apontam para o que acontece quando a consciência muda e assume a forma de outra dimensão superior e mais subtil.

Por isso, o Navaratri tem este significado. Durante nove dias os sadhakas criam uma mudança nas suas vidas através de um empenho concertado em seguir uma disciplina espiritual específica. O sadhaka recebe uma série de instruções no início sobre como praticar, como se observar a si próprio, e que disciplinas manter. Isto é conhecido como Navaratri anushthana.

O sadhana de nove dias do Navaratri é uma prática ancestral de devoção à natureza cósmica, à Mãe Cósmica, Mãe de toda a criação. Afinal, quem pode dizer se Deus é homem ou mulher? Como pode alguém conhecer o verdadeiro Ser? Seja o que for que é conhecido, tem sempre algo por trás. É como descascar uma cebola – tudo o que encontramos é mais uma camada. Sendo transcendental, Deus é incompreensível através do intelecto. Por isso, as pessoas em que o intelecto predomina pensam que a realização de Deus é apenas uma fantasia da mente. Mas as pessoas com coração, com sentimento, têm a convicção e a fé para saber que podem encontrar Deus e ter a experiência do divino nas suas vidas. Ganham força através da bhakti, a bhakti é o abrir do coração e a união com a energia que nos envolve. Quando passamos tempo com alguém que amamos profundamente, existe uma fusão total da consciência. É possível perder o conceito de tempo quando existe esse sentimento de felicidade, de contentamento e euforia. É isso que acontece quando essa mesma energia é canalizada, conduzida e orientada no sentido da força da criação, que é conhecida como Shakti.’

Swami Niranjanananda Saraswati

 

mumukshutva

‘Mumukshutva é o intenso desejo de libertação. Uma mente equilibrada é difícil de alcançar, mas o sucesso acontece aos que ousam e agem; raramente acontece aos tímidos. É essencial um desejo intenso e sincero. A vida espiritual é uma luta contínua contra os aspectos inferiores da nossa própria natureza. No entanto, quando estes são purificados, somos levados a sentir um poderoso impulso de expansão, que nos conduz à nossa natureza essencial de absoluta serenidade e silêncio.

Realiza cada vez mais a tua verdadeira natureza, pacífica e essencial. Quanto mais desejares virar uma nova página e viver uma vida pura e divina, mais oportunidades vão surgir. Desenvolve uma aspiração voraz. Ora ao Senhor do fundo do teu coração. Alcança a paz interior e vive na paz interior. Mantém a tua aspiração pelo divino sempre viva.

Todo o aspirante tem de desenvolver um desejo ardente por Deus, pois é este mesmo desejo poderoso de alcançar a auto-realização que vai destruir todos os outros desejos mundanos. A força da nossa vontade deverá ser a força invencível que nasce da sabedoria e do discernimento entre o real e o irreal, nascida da nossa própria sinceridade e dedicação com todo o coração ao yoga da equanimidade. Prepara-te para sacrificar tudo. Com uma verdadeira aspiração, como pode alguém falhar na conquista do mais elevado estado de tranquilidade? Como pode o aspirante não se tornar no yogi supremo? O desejo de evolução espiritual tem de ser verdadeiro e duradouro. Só assim pode o aspirante progredir e manter-se no caminho.

Uma vida de sadhana tem de se tornar uma paixão, então sê firme nos teus votos e ardente na tua determinação. Cada fracasso é um movimento no sentido do sucesso. Cada dificuldade ou desapontamento é um teste à tua fé. Sê um herói e vence a batalha espiritual. O sadhana espiritual é como subir uma montanha e requer uma paciência e perseverança extarordinárias. A mente está desassossegada num momento e logo a seguir tranquila. Nunca cedas à sua instabilidade. Mantém a serenidade, o equilíbrio e a firmeza. Sejam eles quais forem, ultrapassa todos os obstáculos que se atravessem no caminho através do empenho, fé e renúncia. A adaptabilidade e a vontade de ferro podem transformar todos os obstáculos em incentivos.

Sê uma luz para ti próprio. Suporta calmamente os insultos, as privações e os sofrimentos. Vive em harmonia em toda a parte, com toda a gente. Age com nobreza, vive em paz, resiste à dor. Não há nada comparável à paz neste mundo. Por isso, continua com as tuas práticas espirituais com um zelo irredutível, e vais com certeza ter sucesso. Abençoado seja o aspirante sério que possui uma vontade adamantina de alcançar as virtudes espirituais.’

Swami Shivananda Saraswati

 

Alegoria da Caverna

‘Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos “robertos” colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.

– Estou a ver – disse ele.

– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.

– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.

– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?

– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?

– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles ?

– Sem dúvida.

– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?

– É forçoso.

– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?

– Por Zeus, que sim!

– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.

– É absolutamente forçoso – disse ele.

– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?

– Muito mais – afirmou.

– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?

– Seria assim – disse ele.

– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?

– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.

– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.

– Pois não!

– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.

– Necessariamente.

– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.

– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.

– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?

– Com certeza.

– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba”, e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?

– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.

– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?

– Com certeza.

– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão ? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam ?

– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.’

Platão

 

o maior dos milagres

‘Questão: O que quer dizer quando diz: eu conheço-me a mim próprio como sou?

Maharaj: Antes da mente – Eu sou. ‘Eu sou’ não é um pensamento na mente; a mente acontece-me a mim, Eu não aconteço à mente. E como o tempo e o espaço estão na mente, Eu estou além do tempo e do espaço, eterno e omnipresente.

Q: Está a falar a sério? Quer realmente dizer que existe em toda a parte e a toda a hora?

M: Sim, é isso que estou a dizer. Para mim é óbvio, tal como a liberdade de movimento é óbvia para ti. Imagina uma árvore a perguntar a um macaco: ‘estás a falar a sério, quando dizes que te podes mover de um lado para o outro?’, e o macaco diz: ‘ sim, é isso que estou a dizer’.

Q: Também está livre da causalidade? Pode fazer milagres?

M: O próprio mundo é um milagre. Eu estou além dos milagres – Eu sou absolutamente normal. Comigo todas as coisas acontecem como tem de ser. Eu não interfiro na criação. Para que me servem a mim pequenos milagres quando o maior dos milagres está sempre a acontecer? Seja o que for que vejas é sempre o teu próprio ser que estás a ver.’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

guru stotram

‘akhandamandalaakaaram vyaaptam yena charaacharam

tatpadam darshitam yena tasmai shrii gurave namah

o indivisível, o uno infinito que permeia todo o universo móvel e imóvel,

foi-me revelado pelo guru, a este guru as minhas saudações.

ajnaanatimiraandhasya jnaanaanjanashalaakayaa

chakshurunmiilitam yena tasmai shrii gurave namah

a ignorância que me cegava como uma catarata foi removida pelo colírio do conhecimento,

o guru abriu-me os olhos, a este guru as minhas saudações.

gurur brahma gurur vishnu gururdevo maheshvarah

guruh saakshaat parambrahma tasmai shrii gurave namah

o guru é o criador, o guru é o preservador, o guru é o divino destruidor,

o guru é verdadeiramente a realidade suprema, a este guru as minhas saudações.

sthaavaram jangamam vyaaptam yatkinchit sacharaacharam

tatpadam darshitam yena tasmai shrii gurave namah

aquilo que está imanente em todas as coisas no universo, animadas e inanimadas, móveis e imóveis,

foi-me revelado pelo guru, a este guru as minhas saudações.

chinmayam vyaapitam sarvam trailokyam sacharaacharam

tatpadam darshitam yena tasmai shrii gurave namah

aquilo que brilha intensamente por si próprio, que permeia todos os três mundos, o móvel e o imóvel,

foi-me revelado pelo guru, a este guru as minhas saudações.

sarvashrutishiroratna viraajitapadaambujah

vedaantaambujasuryaaya tasmai shrii gurave namah

a jóia da coroa de todas as revelações está aos seus pés de lótus,

o guru é o sol para o lótus do vedanta, a este guru as minhas saudações.

chaitanyam shaashvatam shaantam vyomaatiitam niranjanah

bindunaadakalaatiitah tasmai shrii gurave namah

a consciência eterna, a paz que transcende o espaço e o tempo, imaculada,

além da semente original, do som primordial e de toda a particularidade, a este guru as minhas saudações.

jnaanashakti-samaaruudhah tattva-maalaa vibhuushitah

bhukti-mukti-pradaataa cha tasmai shrii gurave namah

estabelecido no conhecimento e no poder, adornado com a grinalda da verdade elementar,

aquele que concede a fruição e também a libertação, a este guru as minhas saudações.

aneka janmasampraapta karmabandhavidaahine

aatmajnaana pradaanena tasmai shrii gurave namah

aquele que queima as amarras das acções acumuladas por inúmeros nascimentos,

ao conceder o conhecimento do ser, a este guru as minha saudações.

shoshanam bhava-sindhoshcha jnaapanam saara-sampadah

gurorpaadodakam samyak tasmai shrii gurave namah

o interminável oceano dos desejos seca completamente com o conhecimento da verdadeira riqueza,

o conhecimento que bebemos na água que banha os pés do guru, a este guru as minhas saudações.

na guror-adhikam tattvam na guror-adhikam tapah

tattva-jnaanaat param naasti tasmai shrii gurave namah

não existe verdade superior ao guru, não existe purificação superior ao guru,

superior ao conhecimento da verdade elementar, não existe nada, a este guru as minhas saudações.

mannaathah shri jagannaathah madguruh shrii jagadguruh

madaatmaa sarvabhuutaatmaa tasmai shrii gurave namah

o meu senhor é senhor de todo o mundo, o meu guru é o guru do mundo inteiro,

o meu ser é o ser em todas as coisas, a este guru as minhas saudações.

gururaadiranaadishcha guruh parama-daivatam

guroh parataram naasti tasmai shrii gurave namah

o guru é o princípio do universo, no entanto o guru não tem princípio, o guru é a divindade suprema,

superior ao guru, não existe nada, a este guru as minhas saudações.

dhyaanamuulam gurormuurttih puujaamuulam gurorpadam

mantramuulam gurorvaakyam mokshamuulam gurorkripaa

a raiz da meditação é a forma do guru, a raiz da adoração devocional está aos os pés do guru,

a raiz do mantra é a palavra do guru, a raiz da libertação é a graça do guru.

om shaanti shaanti shaantih

om paz paz paz’

Guru Gita

 

luz das luzes

‘Mestre: Com que luz vês tu?

Discípulo: A luz do sol durante o dia, a luz da lâmpada durante a noite.

M: Com que luz vês tu essas luzes?

D: O olhar.

M: Com que luz vês tu o olhar?

D: A mente.

M: Com que luz conheces a mente?

D: O Atma. (o Eu, o Ser)

M: Então tu és a Luz das luzes.

D: Sim, Isso Eu sou.’

Adi Shankaracharya

 

medo

‘Questão: Já não tenho medo. Encontrei alguma paz.

Maharaj: Que espécie de paz? A paz de teres o que queres, ou de não quereres o que não tens?

Q: Um pouco de ambas, acho eu. Não foi de todo fácil. Enquanto o ashram é um sítio bastante pacífico, por dentro eu estava em agonia.

M: Quando realizares que a distinção entre interior e exterior está apenas na mente, deixas de ter medo.

Q: No meu caso, essa realização aparece e desaparece. Ainda não alcancei a imutabilidade da plenitude absoluta.

M: Bem, enquanto acreditares nisso, tens de continuar com o teu sadhana, para dispersar a ideia falsa de não seres completa. O sadhana remove a falsidade sobreposta ao ser. Quando realizares que tu própria és menor que um ponto no espaço e no tempo, algo pequeno demais para ser cortado e breve demais para ser morto, aí, e só aí, todo o medo desaparece. Quando és mais pequena que a ponta da agulha, a agulha não te pode furar – és tu que furas a agulha!’

Sri Nisargadatta Maharaj

 

toda a Verdade

‘Domingo, 12 Julho 1981 – Como tem sido habitual nestes últimos dias, o Maharaj estava deitado na sua cama, Anna, a sua fiel devota e assistente, massajava-lhe as pernas. Respirava com bastante dificuldade, quase sempre pela boca. Parecia estar a dormir profundamente. De repente, lutou para se conseguir sentar e foi ajudado a reclinar-se, suportado por algumas almofadas dispostas para esse efeito. Começou a falar, e a sua voz estava surpreendentemente firme:

  • O que vos quero dizer é espantosamente simples, desde que seja intuído directamente. A parte divertida é que só pode ser intuído se o ‘ouvinte’ estiver completamente ausente! Só assim é que a apercepção acontece, e tu és essa apercepção. O Absoluto não-manifestado expressa-se a si próprio na manifestação. A manifestação acontece através de milhões de formas; e em cada uma destas opera a consciência, a conduta e funcionamento de cada forma está, em geral, de acordo com a natureza básica da categoria à qual a forma pertence (quer seja uma planta, um insecto, um leão ou um homem), e em particular, de acordo com a combinação específica dos elementos básicos presentes em todas as formas. Não existem dois seres humanos iguais (as impressões digitais nunca são exactamente iguais); por causa das permutações e combinações dos milhões de tons possíveis em cada um dos oito aspectos (os cinco elementos básicos e os três gunas) resultam biliões e triliões de formas, em que a natureza de duas formas nunca é exactamente idêntica. Milhões dessas formas estão constantemente a ser criadas e destruídas no processo da manifestação. Uma percepção clara deste processo de manifestação implica a seguinte compreensão: (1º) não há na verdade nenhuma possibilidade de qualquer identificação com qualquer forma individual, porque a própria base desta manifestação-representação é a duração (de cada forma), e a duração é um conceito temporal; e (2º) a nossa verdadeira natureza é o testemunhar desta representação.Nem sequer é necessário dizer que o testemunhar só é possível enquanto o espectáculo continua, e o espectáculo só continua enquanto existir consciência. E quem compreende isto? A consciência, claro, que tenta procurar a sua fonte e não a encontra, porque aquele que procura é o procurado. A apercepção desta verdade é a derradeira e única libertação, e o ‘joker no baralho’ é o facto de que até a ‘libertação’ é um conceito! Agora vai e contempla o que foi dito.

Depois de dizer estas poucas palavras, o Maharaj sentiu-se completamente esgotado. Deitou-se de novo na cama. Com uma voz fraca, acrescentou:

  • O que eu disse esta manhã é toda a Verdade que alguém precisa de saber.’

Ramesh Balsekar, ‘Pointers from Nisargadatta Maharaj’